ModaLisboa Collective parte 2: Ricardo Andrez

Por Sandra Dias

O call to action para uma moda mais sustentável foi dado pela ModaLisboa. No terceiro dia Ricardo Andrez junta-se ao colectivo e apresenta a sua coleção P/V 20.

ModaLisboa Collective Fast Talks | ©ModaLisboa | Art Direction: Eduarda Abbondanza | Photo: Carlos Teixeira

O arranque da edição ModaLisboa Collective deu-se no dia 10 de outubro com os happenings no Wonder Room e as Fast Talks. Eduarda Abbondanza deu as boas vindas a mais uma edição da ModaLisboa e apresentou os novos espaços na Freguesia de São Vicente. Quem também falou foi Catarina Vaz-Pinto, vereadora da Câmara Municipal de Lisboa com o pelouro da Cultura. E felicitou a organização pelo seu programa, e pelos temas das Fast Talks e do Check Point. Que sublinham a importância da sustentabilidade da moda e  preparam as pessoas e a cidade para o próximo ano em que Lisboa vai ser Capital Verde Europeia 2020.

A ModaLisboa na edição Boundless de Março de 2016 fez um primeiro alerta para a questão da sustentabilidade na moda, através das Fast Talks, subordinadas ao tema ‘Sustentabilidade na Moda: Porquê e Como?’ Referindo-se a essa edição Eduarda Abbondanza disse-nos, em entrevista, que “a questão não fica resolvida porque a assinalámos”.

Três anos depois a organização volta a destacar a urgência da responsabilidade da Moda na crise climática. Quem também volta é Patrick Duffy, fundador da Global Fashion Exchange (GFX), que em 2016 ajudou a ModaLisboa a plantar a sementinha da consciência ambiental. Duffy foi  um dos oradores das Fast TalksFashion and Positive Impact, desta edição, juntamente com Carolina Alvarez-Ossorio – fundadora da marca espanhola Ecoalf; Eva Geraldine Fontanelli – fundadora e CEO da Goooders; e Alfredo Órobio – fundador do colectivo de moda Awaytomars;  e moderadas pela atriz e apresentadora Joana Barrios.

Ainda não se encontrou uma solução para este problema mas estamos mais perto de a conseguir. Falou-se da importância da educação, de criar alternativas com propósito, com valores e com beleza. Oróbio apontou um caminho, o do equilíbrio entre o ético e o lucrativo. A equação tem dois lados fundamentais que são o social e o económico e estes estão intimamente ligados. Estas e outras soluções foram amplamente abordadas mas é indiscutível que a única solução depende do colectivo. Não basta identificar os problemas, encontrar as soluções, se não fizermos o mais importante que é o call to action, colectivo.

Ricardo Andrez é um bom exemplo de quem já partiu para a ação. A sua marca homónima com uma identidade sport e streetwear reinterpretada com uma forte componente gráfica, é uma boa representação de que o designer está na linha da frente desta nova atitude perante a moda. Já o tinha feito na sua coleção de O/I 19’20 com tecidos em dead stock para a qual desenvolveu um padrão que representa os índices da bolsa de valores. Satirizado com o mercado financeiro que também incluiu a moda.

E o que começou como um exercício experimental tornou-se para Andrez uma reflexão constante no campo da sustentabilidade. Como o afirma no seu descritivo para a coleção de P/V 20. Mas o designer tem uma missão, a de diminuir o  impacto sobre o seu próprio consumo. Aqui, ele explica melhor como tudo se reflete no seu trabalho e em especial na  coleção P/V20 que apresenta na  ModaLisboa Collective – Lisboa Fashion Week.

Ricardo Andrez no final do seu desfile P/V 20 | ©ModaLisboa | Photo: Ugo Camera

Exercício de Reflexão

O que é mais importante, o conceito ou a concepção?

É através da concepção que chegamos ao conceito. E esse conceito não tem que ser delineado ao início. O processo de construção pode ser violento, mas de uma aprendizagem impar de mãos dadas com o conceito.

Quando é que o processo começa?

O processo começa logo de manhã.

Na coleção de O/I 19’20 utilizou excedentes de stocks de tecidos de estações passadas. Como foi a aceitação do seu publico perante esta decisão em quebrar com a corrente e dar nova vida a stoks em desuso?

A reação foi óptima, como são produções limitadas só acrescentam desejo. Do ponto de vista comercial funcionou bem e claro que essa pequena consciência social foi importante para os resultados.

É uma evolução ou uma mudança de atitude perante a moda atual? Porquê?

A mudança de atitude em todas as áreas fazem esta evolução, que me parece gritante de tão urgente que é. Só poderá ser assim.

Ricardo Andrez P/V20

A Ironia e a Sátira

Qual é o foco da próxima coleção (SS20)?

A coleção de verão 20 é um pouco o seguimento da anterior. Com todo o desejo de explorar stocks em desuso de novo, mas sem perder traços de identidade. Diminuir e debater-nos sobre o nosso próprio impacto enquanto marca. E isso revelou-se na ironia das peças, exageradamente trabalhadas, tingidas, com bastantes acessórios industriais etc.

Essa continuidade vem acompanhada com muita ironia, o que critica?

Não sei se será uma crítica. De repente surgiram imensas abordagens das grandes marcas com consciência ambiental. E isso torna-se irónico quando essa consciência não abrange a parte social, quem e em que situações foram produzidas as peças. Criamos um print com uma linha telefónica em sustentabilidade garantida.

A moda segue uma tendência mais sustentável ou para algumas marcas é meramente uma campanha de marketing?

Terá que seguir uma vertente mais preocupada e consciente em que o upcycling é inovador.

Ricardo Andrez P/V20 | ©ModaLisboa | Photo: Ugo Camera

Qual são os diferentes parâmetros de sustentabilidade que fazem parte da sua marca? Qual a sua importância?

Os nossos pequenos passos são a produção local, deadstok e produção limitada. Parece-me o caminho mais óbvio a seguir, totalmente desafiante e divertido também!

Acredita que a industria da moda algum dia poderá ser totalmente sustentável?

Acredito nas pessoas.

Qual é o seu motto para uma moda mais sustentável?

Comprar consciente.

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