O Futuro é Agora

Por Sandra Dias

O percurso de Eduarda Abbondanza confunde-se com a história da moda nacional. Impulsionadora de novos designers, Eduarda mantém a sua paixão pela moda e eleva a ModaLisboa a novos desafios onde a mudança geracional e a sustentabilidade já são dados adquiridos.

©Sara Pinheiro

A Eduarda fundou a ModaLisboa há 28 anos, é professora na Faculdade de Arquitetura desde 1993, e começou por ser designer de moda em meados de 1980, tudo isto foi uma consequência do seu interesse pela Moda. Em que momento da sua vida percebeu que não se tratava apenas de um gosto, mas algo maior?

A moda não é clara no meu processo infanto-juvenil. No passado nós tínhamos guarda-fatos, e comprava-se um bom casaco, umas boas botas. Investia-se em peças que fossem boas e que fossem duradouras. Tínhamos  guarda-fatos, agora temos closets. A roupa era rigorosamente cuidada, restaurada e substituída somente quando já não era possível restaura-la. Em Portugal nessa altura vivia-se numa ditadura e a informação não era muita, não havia! O meu contacto com a moda era residual, a minha mãe comprava a Paris Match, viajávamos e eu ia observando, portanto a minha relação com a moda era básica. Foi somente quando cheguei a Milão, após o meu casamento, me que deparei com toda a informação no meu dia a dia. Aí foi imediato. Uma obsessão mesmo. Estudei cá quando voltei. E eu queria mesmo, não havia dúvida nenhuma. Quando contactei a escola, o curso já tinha começado há três meses. Não imagina o que eu fiz para conseguir que eles me aceitassem. Eu negociei tudo, disse que pagava os três meses. Eu disse que ficava lá o dia e noite a estudar para recuperar. Tanto insisti que eles perceberam que não me podiam demover. E aceitaram-me. No curso gostávamos tanto de moda que rapidamente encontramos os nossos pares dentro da turma.

A moda mudou muito e se no passado, ainda que recente, fazia sentido falar-se de tendências de moda, verificamos que atualmente esta palavra perdeu o seu sentido e importância na Moda. Concorda?

Concordo se remetermos à maneira tradicional de como a moda sempre foi organizada. A noção de tendências em que tudo é muito organizado, tudo antecipado – as tendências de cor começavam a ser preparadas quatro anos antes, as de tecidos e as de silhueta também com bastante antecedência – esse lado organizado da moda desapareceu. Contudo, continuam a haver cadernos de tendências. Sempre considerei a revista View on Point, do grupo View, uma revista muito importante na medida em que nos oferece informações mais conceptuais. Neste momento ainda gosto de ler a View on Point porque eles abordam assuntos muito interessantes da atualidade, que são também assuntos que determinam a agenda mais profunda desta área. Como são as questões da sustentabilidade, por exemplo.

São os avanços tecnológicos que nos apontam nesta direção ou as sociedades também evoluíram e alteraram os seus hábitos de consumo de moda?

O conceito das tendências evoluiu paralelamente com os avanços da tecnologia e com a disponibilização da própria moda às pessoas em tempo real. No passado havia os desfiles, estavam lá batelões de fotógrafos e não saía uma única imagem cá para fora. As imagens saiam somente passados seis meses. E isso foi tudo alterado. A partir do momento que isso é tudo alterado, a moda não tem como permanecer igual. Funcionamos muito mais em micro tendências. Porque essas micro tendências, ligadas globalmente, têm uma capacidade de influência muito grande mas é tudo muito mais efémero. Por outro lado, existem artigos de moda que ficam muito tempo. Os sleepers com pelo da Gucci, por exemplo, apareceram há várias estações e continuam a ser vendidos pela marca. Depois as outras marcas também os imitaram, e toda a gente tem, não é? Isto para explicar que há fenómenos muito instantâneos mas depois há outros que ficam residentes. Como os sleepers que quando apareceram eram estrambólicos. Na altura toda a gente estranhou, criticou, mas ainda continuam na moda. A moda reflete sempre essa esquizofrenia, essa bipolaridade.

Como é que a Eduarda se descreve enquanto consumidora de moda?

Eu adoro comprar. Parei com a minha marca porque queria fazer uma marca que as pessoas comprassem por impulso. Moda é isso. Que comprassem aquela camisa porque aquela camisa era fantástica, não porque aquela camisa era da minha marca e elas minhas amigas, nem pensar. Isso para mim tirava-me do sério. Talvez porque eu sou essa consumidora. Eu não gosto nada de roupa feita por medida, lembro-me quando ainda era pequenina tinha que ir à costureira por causa dos casamentos e dos batizados, eu desmaiava. Aquilo era um sofrimento para mim. Eu gosto de ter. Até a própria internet gera-me alguns problemas. Eu não faço muitas compras online, porque levam tempo a chegar, mesmo que seja um dia. Eu gosto mesmo é de ter naquele momento, naquela hora. Moda para mim são peças deslumbrantes. Aqueles sapatos, aquela carteira, eu gosto de ter casacos muito bons, que durem quatro invernos, gosto que passado o verão os possa reencontrar. Tenho uma relação afetiva com a roupa, com o vestuário.

Como acha que as novas gerações vêm a moda?

A minha filha não é nada assim. A Sofia tem pilhas de roupa, que a mim me transtorna. Não têm uma relação de cuidado com essa mesma roupa, porque é descartada. E estou sempre a tentar contrariar-lhe isso. Sendo que em bom rigor, ela de há dois anos a esta parte começou a ir buscar coisas do meu closet. Coisas que têm uma longevidade maior, carteiras, cintos, a apropriar-se desse tipo de peças. Mas não resiste quando tem uma festa em comprar novo. Eu tinha um guarda roupa maravilhoso, tinha um smocking da Yves Saint Laurent, do sr. Yves Saint Laurent, um Stella McCartney, um Tom Ford, tinha vários little black dresses e ótimos. Tinha um guarda-roupa primoroso. Mas engordei e percebi a perenidade desse investimento todo. Sofri imenso, chorei, tentei enfiar-me dentro de tudo e depois comecei a oferecer a pessoas que gosto. A Sofia não tem as medidas que eu tinha. Portanto aquilo que ela gosta são os meus acessórios. Carteiras, cintos, lenços, as pashminas ela sabe escolher quais é que são as melhores. Naquela panóplia de pashminas escolhe mesmo aquela que não é suposto usar, que é a que eu mais gosto.

Sangue Novo: Carolina Raquel O/I 19'20 ©ModaLisboa photo: Dulce Daniel

No contacto que tem com os alunos na Faculdade, com os novos designers de moda (LAB e Workstation) e com os concorrentes do Sangue Novo, consegue distinguir quais são os que aliam o design a uma melhor utilização dos materiais (orçamentos à parte)?

Acho que nessa idade, inevitavelmente não passa por aí, passa por outros estímulos. Por um conjunto alargado de experiências necessárias à evolução da própria pessoa enquanto designer. Descobrir o seu caminho e onde é que se encontra. A criação de uma imagética é algo muito forte. A parte da execução das coleções, nesse sentido, já é um trabalho mais sénior. Na idade deles o principal foco recai sobre a imagem e a experimentação. Mas nós (professores) damos-lhes exemplos reais do que é importante saberem. Quais são os artigos proibidos na moda, pelas razões da sustentabilidade. Só que existem e é importante que eles saibam quais são. Nesta fase têm uma percepção mista do que é a sustentabilidade. Inevitavelmente eles têm isso muito presente porque na faculdade é-lhes passado este mindset. Acontece que ainda não nos é fácil traduzirmos isso em exemplos práticos. É muito difícil porque existem diversas variantes, muitas contradições e pouco esclarecimento. Como certificar um produto em toda a cadeia de produção. As grandes marcas que têm produções globais, muito dificilmente conseguem certificar o produto até ao final. Um bom exemplo foi o que aconteceu com a Calvin Klein, ainda no século vinte, em que uma das fábricas que produzia os seus acessórios estava a dizimar as cobras dessa região. Consequentemente o número de ratazanas cresceu e as autoridades locais viram-se obrigadas a pedir-lhes que parassem com essa produção porque estavam a desequilibrar o ecossistema.

Quais são as preocupações e as inspirações das novas gerações de designers?

Tudo tem a ver com a criatividade, com a cultura e com a entourage cultural da própria pessoa. Há pessoas que denotam imediatamente skills mas não adquirirem uma cultura inerente à própria área. Isso inevitavelmente acaba por revelar-se uma preocupação no processo evolutivo de cada um.

Os designers portugueses, a par com os italianos, têm uma grande vantagem em relação a outros designers, porque em Portugal a Industria Têxtil e do Calçado reúne tudo o que é preciso para se fazer uma coleção de roupa ou de acessórios. Será que eles sabem aproveitar esta vantagem?

Sabem aproveitar isso mas não têm muitas hipóteses de aproveitar esse enquadramento. A nossa indústria tem uma enorme tradição que hoje está profundamente alterada e reformulada. Tem um funcionamento muito próprio e os designers para conseguirem trabalhar com a indústria têm que também saber lidar com essa realidade. E muitas vezes acabam por ficar distantes. Os designers vêem a indústria como a que fabrica para outros e sentem-se incompreendidos por esta. Não é bem assim, a indústria tem uma missão e os designers têm outra. Tem que haver uma intermediação entre indústria e designers. Em Portugal temos a figura do produtor têxtil mas ainda são poucos. É uma figura que tem que crescer. Em Itália estão muito presentes e são vários. E também têm uma espécie de laboratórios de prototipagem para pequenas séries. Por cá, algumas fábricas fazem-no mas com esforço porque não é a sua natureza. O César Araújo, presidente da ANIVEC – Associação Nacional da Indústria do Vestuário e do Calçado, percebeu esta lacuna e tem vindo a dedicar-se há muitos anos. Na ModaLisboa | Lisboa Fashion Week apresentamos em Outubro, no Showcase, uma amostragem da atividade dum industrial. Um industrial não tem que ser sponsor, ele tem que fazer a sua indústria funcionar e tratar bem os seus empregados, garantir os postos de trabalho, garantir ordenados, esta é a sua missão. O César Araújo que também é o proprietário da Calvelex tem a maior tecidoteca do mundo. O que é uma bênção para os designers em Portugal, porque consegue fornecer amostras, todas com a ficha técnica, e em pequenas metragens. Mas isto é a iniciativa de uma pessoa. É de uma admiração incrível porque é filantrópico. De repente o pânico dos alunos no desfile final, por causa do budget, desaparece. Ali podem comprar pequenas metragens para fazerem as coleções, que no final valoriza imenso. É este tipo de iniciativa que faz do César Araújo um pioneiro em Portugal mas que em Itália já é comum acontecer. A fabricação de tecidos e toda a indústria têxtil em Itália, está muito ligada às escolas. Aqui ainda está pouco casada. Porque as escolas fazem o seu papel de defender o designer e a indústria tem que defender o seu lado. Tem que haver uma compreensão entre as duas partes. Juntando as duas realidades ficam todos beneficiados. Agora já começa a ser possível adquirir os excedentes de produção têxtil, dantes era muito difícil, dependia-se da boa vontade e não estava nada organizado. Se é possível aproveitar tecidos de outras estações, isto reforça ainda mais que a moda não está cingida às tendências. Estes tecidos são importantíssimos para os designers e não somente para os estudantes. Na área do calçado, a direção da APICCAPS – Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos, também tem tido uma política de proximidade com todos aqueles que tem skills e que queiram desenvolver coleções de calçado, nomeadamente os designers da ModaLisboa. São estas ações que no passado não existiam e que agora começam a surgir que são fundamentais para que as áreas se cruzem.

©Sara Pinheiro

Em Outubro do ano passado recebeu a Medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Lisboa, o que representa para si esta distinção?

Trago-a ao peito! É fixe. Eu sou uma pessoa que não está habituada a ter esse tipo de reconhecimento. A recompensa pelo meu trabalho vem das pessoas com quem eu trabalho habitualmente. Não vem do exterior. Foi uma surpresa enorme e foi incrível. Esse reconhecimento foi votado por unanimidade na Câmara e isso é meritório. Já tinha recebido a medalha de mérito cultural de Cascais mas não a de Lisboa, o que era estranho. Esta é a minha cidade. Eu criei uma marca e trabalhei-a quando ninguém pensava dessa maneira. E claramente ao longo destes anos, todos comunicamos muito a cidade de Lisboa. Dentro do pais e internacionalmente como um motor de modernidade que é a ModaLisboa | Lisboa Fashion Week. Claro que para mim, poder partilhar isso com outras pessoas que iriam apreciar imensamente, como é o caso da minha mãe, já não pude, porque a minha mãe já morreu. Partilhei muito com a minha fila, acho que ela ficou muito orgulhosa e acho que a minha equipa também. É fixe para mim e para a comunidade (moda), é para todos. Sou uma mulher, passo isso também como uma mensagem feminina, é importante no nosso mundo que é tão masculino (no campo do topo das decisões e na indústria têxtil) uma mulher ser distinguida.

Se é possível aproveitar tecidos de outras estações, isto reforça ainda mais que a moda não está cingida às tendências.

Workstation: Filipe Augusto O/I 19'20 ©ModaLisboa | Photo Ugo Camera

Nestes 28 anos a ModaLisboa tem sido um exemplo de liderança e resiliência que ajudou a mudar a forma de pensar, como vivemos e como nos conectamos com a Moda em Portugal. Existem mais mudanças que possam vir a promover? Quais?

Temos estado a promover uma alteração enorme que é a introdução de uma nova geração. Que consiste em analisarmos as marcas e percebermos a sua procura de novos públicos. Porque essas marcas faziam parte de uma época e seu publico foi envelhecendo, portanto há que captar novos públicos. Na ModaLisboa |Lisboa Fashion Week assistimos a um novo fluxo de designers e de público, porque estamos perante uma mudança geracional. Que tem a ver com os Millennial e com o digital. Essa percepção da realidade e a criação de espaços próprios para que eles se manifestem e cresçam é uma preocupação que temos há já algum tempo. Começamos a trabalhar com muita antecedência e só se torna óbvio e publico passado um certo tempo, não é imediato. Quando começamos a ser copiados já estamos na fase seguinte. Temos desenvolvido uma intervenção direcionada para as novas gerações, como é que pensam, como é que se manifestam, qual é o seu entendimento sobre moda. Estamos muito atentos para tentar percebe-los. Porque eles são diferentes, têm outras preocupações, têm outras facilidades e têm outras dificuldades.

Em 2016 na Edição Boundless da ModaLisboa o tema das Fast Talks foi ‘Sustentabilidade na Moda: porquê e como?’. Como foi a reação do publico?

A ModaLisboa teve sempre uma relação com as disciplinas todas. Nós trabalhámos imenso a arquitetura e o design de interiores e trabalhámos imenso o design gráfico. Fizemos coleções de livros para desenvolver a edição, a escrita, a pesquisa e a reflexão sobre moda. Fizemos o Sangue Novo, também para a procura dos novos talentos. Fizemos uma loja da ModaLisboa que deu o mote de saída das concept stores para o lifestyle, fizemos edições de t-shirts. Nós vamos sempre mudando a forma de como manifestamos e interpretamos o que se está a passar aqui e no mundo. Em 2016 o nosso foco foi esse, o da sustentabilidade. Assinalamos essa questão. Sendo que ela não fica resolvida porque a assinalamos. Mas fizemos um primeiro alerta. Em 2016 conseguimos fazer o mercado de trocas e conseguimos sensibilizar as pessoas para este tema. Este projeto chegou-nos a partir da Câmara. Todo ele foi projetado pela câmara e trabalhamos em conjunto para o albergar na ModaLisboa |Lisboa Fashion Week. Era um budget à parte, um projeto à parte. E nós conseguimos dar-lhe dimensão. Foi muito difícil pô-lo de pé. Porque as pessoas são resistentes mas depois acabaram por aderir. Para isso tivemos que criar uma rede de ativadores que já estavam sensibilizados para o tema e que iriam sensibilizar outros. Tínhamos pouco tempo para o realizar. Estávamos num espaço novo que foi no CCB. Trabalhamos em rede, criamos gestores de projeto, criamos a primeira linha de ativistas que deu origem a outras. E foi tudo em cadeia, de repente acionou-se tudo e toda a gente fez ‘Exchange’ (risos). Ficamos muito emocionados. Se as pessoas virem e entenderem é tudo muito mais fácil.

Dino Alves O/I 19'20 ©ModaLisboa | Photo: Ugo Camera
Dino Alves O/I 19'20 ©ModaLisboa | Photo: Ugo Camera
Dino Alves O/I 19'29 ©ModaLisboa | Photo: Ugo Camera

Em Março durante a ModaLisboa Insight a palavra sustentabilidade ouviu-se várias vezes. Os desfiles de Awaytomars, de Ricardo Andrez, de Imauve, de Valentim Quaresma e de Dino Alves foram bons exemplos. Este tema é um reflexo da moda ou o resultado de um comportamento geracional?

Hoje, todos temos consciência que a moda é uma das indústrias mais poluentes a nível mundial e tornou-se imperativo a existência de uma mudança nesse paradigma com implicações a vários níveis. Apesar de as novas tecnologias contribuírem para uma indústria mais eficiente e com maior rentabilização de recursos. Os níveis de produção de artigos de moda aumentaram significativamente o que levou a uma série de problemas como o aumento de resíduos químicos, dos resíduos de artigos usados, dos excedentes de produção, bem como a emissão de CO2 associada com todo o transporte de mercadorias à escala global e em enormes proporções. Cada vez mais existem campanhas de sensibilização e legislação neste sentido. Têm impacto e consciencializam o mercado, as diversas gerações que intervêm na indústria, assim como o consumidor final. A preocupação com a sustentabilidade, neste momento, é um reflexo de uma geração consciente das consequências ambientais e sociais dos métodos e processos empregues ao longo das últimas décadas pela indústria da moda. É urgente repensar a forma de produzir nas suas várias etapas. E essa mudança desencadeia-se também no pensamento do design. Os exemplos referidos são alguns dos casos inspiradores e traduzem esta vontade de mudar.

Hoje, somos um evento mais consciente, menos poluente e mais amigo do ambiente.

Mais recentemente Helsínquia Fashion Week baniu a pele dos seus desfiles, Amesterdão FW baniu os pelos, e a New York FW dá sinais de querer avançar com uma decisão semelhante. A Eduarda como presidente da ModaLisboa, acredita que poderá impor aos designers uma restrição ligada à sustentabilidade na próxima Lisboa Fashion Week? Qual seria?

Nesta edição da ModaLisboa | Lisboa Fashion Week, enquanto evento, tomámos medidas ligadas à sustentabilidade e são exemplo: a abolição do plástico no nosso catering; o incentivo à reutilização de garrafas de água; as parcerias com a Renova, a Lexus, a EPAL e a Refood; entre outras. Hoje, somos um evento mais consciente, menos poluente e mais amigo do ambiente. Em relação à imposição de restrições aos designers, penso que não será nesse sentido que o trabalho deve ser feito. Se enquanto evento nos tornarmos mais sustentáveis, consequentemente os nossos designers irão consciencializar-se que o seu trabalho também deve ir de encontro a esta demanda universal. E acredito que serão mais os designers a adotarem métodos e metodologias mais sustentáveis. Às gerações de criadores mais jovens, como os de Sangue Novo, Workstation e LAB, nos momentos de mentoring e aconselhamento, feitos pela equipa ModaLisboa bem como pelas equipas que colaboram connosco, tentaremos direciona-los para decisões e estratégias que vão de encontro a uma maior sustentabilidade.

Qual é a sua visão para um sistema da moda mais sustentável?

Passa sempre pela cadeia toda. Começa na modelagem, onde sempre se tentou poupar tecido porque incidia no preço. Neste momento também por questões ligadas à sustentabilidade a própria modelagem está a tentar aproveitar a totalidade do tecido. Já há estudos feitos neste sentido e estão a desenvolver-se metodologias para que os moldes se encaixem dentro de um quadrado, onde não vai sobrar absolutamente nada (tecido sem desperdícios). É um processo difícil e complexo por causa das suas várias etapas. As empresas de químicos muitas vezes não cumprem e é aí que tudo se agrava, logo no principio da cadeia, com a produção de químicos de pigmentos. A tecnologia pode ajudar a solucionar muitas questões, pode melhora-las e resolve-las. Os interesses económicos dificultam ainda mais a isenção da moda no impacto ambiental, e contra isso é dificílimo lutar. Como são globais, as indústrias são sempre mais rápidas que os governos e a legislação. E são esses entretantos que dificultam tudo. A globalização é degenerativa de um processo empresarial que vai usar as lacunas existentes na área da legislação nos territórios onde opera. Têm que existir mais organizações globais que vigiem estas exceções no sentido de manter o equilíbrio ambiental. Acho que é difícil mas temos que o fazer. Também passa pelas pessoas, pelo seu lado cívico e com o facto das pessoas se importarem. Há uma mensagem que considero importante, nós sempre achamos que tudo iria correr mal e que não iríamos estar cá. “Quando isso acontecer nós já não vamos estar cá.” Mas com a evolução tecnológica e com a pressa que o mundo adquiriu com a parte digital, pode mesmo acontecer connosco ainda por cá. É imperativo pensarmos na preservação do planeta e na nossa auto-preservação. A questão do civismo das pessoas perante a sustentabilidade está também relacionada com as questões culturais. As sociedades democráticas são aquelas que favorecem a discussão e o pensamento da reunião das pessoas e da ação. São aquelas que permitem isso. Tem que se apostar muito na cultura e na formação dos cidadãos para que estes tenham capacidade de resposta a esses desafios. A moda é o reflexo da sociedade, é o megafone do mundo. Por isso é que é tão importante. É incrível o que a moda pode fazer!

A moda enquanto fenómeno consegue ser um agente de mudança positivo?

Claro que sim! A moda já foi um agente de mudança essencial para outras questões sociais como a emancipação da mulher, por exemplo. Sempre foi uma ferramenta de comunicação que, atualmente, reúne áreas como marketing e comunicação, nas quais as marcas estão a focar também a sua estratégia de consciencialização por uma indústria mais sustentável. Com o aumento do número de marcas que implementam estas estratégias e com todas as outras ações de sensibilização existentes, também o consumidor consciente vai aumentar. E criar uma mudança positiva no tipo de consumo de moda. Deixo só como alerta para que esta preocupação com o planeta não se torne um statement de marketing vazio. Diz respeito a todos nós e devemos garantir que isso não aconteça.

Qual é o seu motto para uma moda sustentável?

Não insistas para sempre nem desistas logo. O meu motto tem muito a ver com o que acredito ser o motto comum de muitas pessoas, que é o equilíbrio. Essa procura do equilíbrio faz parte o ser humano e tem a ver com tudo. Estar conectado com o nosso ambiente e com as pessoas à nossa volta, com o mundo e perceber como é que a nossa ação pode ser positiva.

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