Welcome to the Jungle

Por Sandra Dias

Foi com estas palavras que Gilles Dreyfus, um dos fundadores e CEO da Jungle, nos recebeu na sua sede em Marvila. Um armazém que acolhe a tecnologia e a natureza em forma de quinta vertical onde a agricultura moderna se faz com preocupações ambientais. Gilles explica-nos como tudo começou, quais as vantagens de se produzir localmente legumes saudáveis e genuinamente naturais livres de pesticidas. De como surgiu a Jungle Greens, da sua expansão para o centro da Europa, e da nova fase – o cultivo de flores para perfumes.

Nicolas Seguy e Gilles Dreyfus, fundadores da Jungle

O que o inspirou a fazer a Jungle?

A Natureza. A vontade de mudar. A Poesia. A Beleza. A Verdade.

Como é que tudo começou e acabou por se materializar?

Li um artigo no Financial Times sobre a crise alimentar, em Janeiro de 2015, no final falavam do começo das quintas verticais. Fiquei chocado e completamente obcecado. Iniciei um longo processo de pesquisa. Descobri que o pai deste conceito era um professor emérito da Universidade de Columbia, em NYC e que escrevera um livro sobre esse tópico. Li o livro. Descobri o seu e-mail e escrevi-lhe a dizer que ia a Nova Iorque. Ele respondeu-me. O nosso encontro foi determinante. Por um feliz acaso, na semana seguinte, iria acontecer a primeira conferencia sobre Quintas Verticais em Las Vegas. E fui. Pela primeira vez na minha vida senti que estava no lugar certo, na hora certa. Regressei a Paris, onde vivia, larguei o meu emprego e comecei a viajar pelo mundo por um ano e meio, para saber o que já existia nesta área. Três meses no Japão. Seis meses no Texas. Conheci o meu sócio Nicolas Seguy em Nova Iorque. Ele vivia em Lisboa e eu em Paris. E Nicolas queria vender hardware e tecnologia a empreendedores como eu. Eu queria construir em grande escala em Paris para fornecer lojas e restaurantes. A industria era nova e imatura, por isso decidimos juntar forças e tornarmo-nos mais fortes. E foi assim que a Jungle nasceu. Angariamos fundos para a primeira etapa. Alugamos um armazém de 600 metros quadrados, em Marvila, Lisboa, dedicado ao R&D (Research and Technological Development). Começamos a crescer…

Pode explicar-nos como funciona e qual o seu conceito?

Desenvolvemos a construção da quinta vertical e operamos em grande escala num ambiente controlado. Onde oferecemos às plantas alimento de excelência, luz e clima, para que estas cresçam em perfeitas condições. Jungle Greens é a nossa marca de frutos e vegetais cheios de sabor e com zero utilização de pesticidas.

Pela primeira vez na minha vida senti que estava no lugar certo, na hora certa.

Uma planta para se formar precisa de água, ar e nutrientes que são fornecidos pelo solo. Ao retirarem o solo da equação como é que esses nutrientes são fornecidos às plantas?

Quando se encontram no solo, as raízes das plantas espalham-se horizontalmente para encontrar os nutrientes que a planta necessita. Graças ao nosso conhecimento agrónomo e à perícia da nossa equipa, sabemos exatamente o que o manjericão, o tomate, precisam para crescerem da melhor forma. Nas nossas quintas aplicamos esta receita a todas as plantas e tentamos replicar de forma mais semelhante ao que aconteceria se estivesse no solo e sem pesticidas. Elaboramos receitas de nutrientes especificas para cada planta.

Quais são as vantagens para quem consome os vossos “greens”?

SAÚDE e SABOR. O que mostra que são frescas. Cheias de nutrientes que realmente alimentam da maneira certa. Cheias de sabor e que se podem conservar por muito tempo em casa. Crescem localmente e não viajam. Oferecemos frutos e vegetais com preços constantes e de qualidade consistente durante todo ano.

Ao criarem as condições perfeitas para o desenvolvimento de cada uma das plantas, podem produzir qualquer tipo de planta em qualquer local?

Sim, sem duvida, podemos cultivar qualquer planta. Mas a densidade e altura de determinadas plantas iriam impactar a configuração da nossa quinta. Por outro lado a combinação desses factores teriam que fazer sentido financeiro ao modelo de negócio da Jungle. Em termos agrónomos, qualquer planta pode crescer no nosso sistema. Financeiramente, o cultivo de laranjeiras, não faria sentido devido ao peso e altura das árvores. De qualquer forma, sim, definitivamente. Mas para fazer sentido financeiramente teríamos que analisar, o custo do metro quadrado; o custo dos recursos humanos; os preços de venda do produto; e o tamanho da nossa quinta. Não existe uma solução para todos e esta equação depende do local onde se estabelece a quinta e que tipo de produtos são vendidos.

Se por um lado evitam que se produza mais emissões de carbono, nomeadamente na fase de transporte, por outro lado estão a acabar com o conceito de plantas autóctones. Como lidam com o paradigma de alterar a Natureza?

Não existe um paradigma no que fazemos. Não estamos a alterar a natureza. Observamo-la e tentamos perceber da forma mais precisa como funciona e tentamos reproduzir. Tentar mudar a natureza seria, para nós, um puro exercício de futilidade. Não colocamos um fim em nada. Não estamos aqui para revolucionar a forma como a comida é produzida. E não estamos aqui para dar palestras a ninguém. Somos somente uma oferta complementar no panorama existente de frutos e vegetais que são saudáveis, saborosos e sem pesticidas. E estamos a tentar cultivar plantas da melhor forma que conseguimos para atingir esses objectivos. Agora, o maior desafio a longo prazo para a Jungle é que o crescimento significativo deste tipo de plantas, em ambiente controlado (no interior) permita que os ecossistemas desgastados pela agricultura intensiva ganhe tempo para se regenerar. Se a nossa industria (alimentar) for na direção certa, podemos contribuir para o restaurar do que tem sido estragado.

Os vossos produtos agrícolas não usam pesticidas, contudo, não são considerados agricultura biológica. Apesar de terem uma componente tecnológica muito importante não são OGM. Existe algum tipo de certificação/grupo onde os vossos produtos se podem inserir?

Ainda não, estamos a trabalhar nisso.

Isso quer dizer que as regras e legislação europeia para a agricultura estão atrasadas ou é a Jungle Greens que está adiantada?

As mesmas regras aplicam-se aos de ambiente controlado e ao resto da produção alimentar. A emissão de gases de efeito estufa é regulada há décadas. Mais, estamos a impormo-nos a nós mesmos altos padrões de segurança alimentar e transparência através do programa Global G.A.P. (God Agricultural Practices).

Manjericão Thai
Manjericão Verde
Manjericão Limão

A possibilidade de comer saladas, ervas aromáticas e micro vegetais acabados de colher é uma realidade possível na cidade, através da primeira Jungle Box, disponível na loja Jumbo de Sintra. Pode explicar-nos o conceito?

Criamos o acompanhamento da semente até a casa do consumidor. Todas as nossas plantas que crescem na Jungle Box (que fica a cinco minutos da entrada principal do Jumbo de Sintra), desde a germinação à fase da colheita – embaladas com uma proteção biodegradável – são levadas por um agricultor da Jungle até ao interior da loja e colocadas num display Jungle Greens, para serem vendidas. Dos catorze produtos, os mais conhecidos são o manjericão, o coentro e a salsa. Outros como o wasabi, o shiso e o manjericão limão não são tão conhecidos e por isso fazemos degustações, na loja. De tomates, queijo, gelados, etc., associados aos nossos greens, a fim de familiarizar os clientes com os Jungle Greens. Também criamos uma seção no site da Jungle Greens, onde temos receitas para dar ideias e criatividade culinária aos nossos clientes.

Segundo um relatório das Nações Unidas em 2050 70% da população mundial vai viver em cidades. Como prevê crescimento da Jungle Greens?

Vamos abrir seis lojas em Paris, em outubro de 2019, com três diferentes retalhistas e estamos a construir uma grande Quinta Jungle nos arredores de Paris. Queremos desenvolver a marca Jungle Greens nos principais centros urbanos na Europa.

Cerca de 40% da superfície terrestre é ocupada pela industria agropecuária, uma das maiores responsáveis pelas emissões de carbono, pela desflorestação e que consome cerca de 70% das reservas de água doce. Perante estes dados já há quem comece a projetar as cidades do futuro, que serão hubs de produção local – de produtos, de comida e de energia – tornando-se auto-suficientes. Como é que vê a Jungle Greens neste cenário?

Como parte da equação. E como uma oferta complementar às diferentes ofertas existentes para o consumidor. Uma marca que é local. Rica em nutrientes. Cheia de sabor e livre de pesticidas.

Atualmente estão a desenvolver o cultivo de flores exóticas, para a industria dos perfumes. Mas a industria dos perfumes trabalha maioritariamente com ingredientes sintéticos, está a dar-se uma mudança também neste sector?

A procura por produtos naturais está a transformar-se fortemente por causa da legislação e dos consumidores. E os perfumistas estão a repensar completamente a forma como adquirem os produtos naturais.

Caminhamos para um reencontro com a Natureza através da tecnologia?

Nós já lá estamos…

Qual é o seu motto para um mundo mais sustentável?

“Happiness is a warm gun “ (referência à música dos Beatles).

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