Ensino, tecnologia e ativismo como impulsionadores do futuro da Moda

Por Sandra Dias

Falamos com Graziela Sousa sobre o futuro da moda, o ensino e a ModaLisboa Awake, que arranca hoje, onde é co-coordenadora dos projetos especiais.

O espírito critico de Graziela Sousa conduziu-a no seu percurso profissional. Não pretende salvar o mundo mas acredita que a critica construtiva tem a capacidade de levar à auto reflexão sobre as atitudes que temos, em particular, na moda.

Licenciou-se em design de moda, é professora universitária e neste momento, candidata a doutoramento na área de investigação do ensino, na vertente do fomento do espírito empreendedor. Aos seus alunos na Faculdade de Arquitetura de Lisboa tenta ensinar num sentido positivo. Contudo, nunca quis ser apenas uma docente, nem apenas uma investigadora. Quer trabalhar com o input que se pode ter para gerar diferentes dinâmicas.

Graziela tem as características típicas da sua geração. Nasceu quando os avanços das tecnologias digitais impunham-se nas nossas vidas. A interação social dos novos media são naturalmente as ferramentas que utiliza para trabalhar ou comunicar. Não se considera uma pensadora mas fomenta a troca de ideias e promove um futuro da moda mais promissor. Agrupando pessoas das áreas da inovação e da criatividade. No fundo é, como ela mesma se descreve, uma doer.

Esta entrevista foi editada e condensada para facilitar a leitura.

Graziela Sousa | Photo: Rui Olavo

Os Projectos Especiais da ModaLisboa

Como e quando é que começou a sua ligação com a ModaLisboa/Lisboa Fashion Week?

E vim parar à ModaLisboa com o Global Fashion Exchange que foi aquela swap que fizemos em 2017. Nessa altura pudemos fazer umas dinâmicas também de networking e chamamos pessoas já ligadas à área da sustentabilidade, nacionais e internacionais.

Fazer o swap foi uma coisa muito divertida e que cá em Lisboa ainda não se praticavam muito outras maneiras de consumir. Depois disso acabei por integrar a equipa. A fazer a co-coordenação do Wonder Room e das das Fast Talks. Também colaborei com o showcase Moda Portugal que foi em Paris, com os eventos que fazemos em parceria com o Cenit, no Porto.

Entretanto quando surgiu a plataforma Check Point, acabou por ser mais uma plataforma onde eu pude contribuir e que realmente está muito próxima do coração, porque é aí que se faz a troca de ideias. E que, se alinha com os meus princípios. Este espaço, o Check Point, é uma plataforma onde juntamos especialistas a falar sobre coisas. E aí vamos por um lado, que eu acho, que é um lado de liderança.

Quando as pessoas vêm ver um evento destes e trabalham nesta área, têm um interesse especifico que vão encetar parcerias, vão dar opiniões, vão dar um feedback super informado. Para nós, o feedback é o mais importante. É importante as pessoas virem e serem ativas e contribuírem. Elas próprias levarem para casa um sentimento de que aquilo que fizeram trouxe-lhes coisas boas, também.

O Check Point dá esta oportunidade (de networking) pelo menos. Não quero assumir algo que não é verdade mas eu acho que, o Check Point tem ali um sitio de germinação de coisas. Discutem-se determinados temas mas discutem-se com uma espécie de uma família. Onde sabemos que também estão outros industry professionals. Dá um outro lado da ModaLisboa, que não é o ser visto. Se bem que eu acho que todos eles podem conviver bem.

Também co-coordena as Fast Talks.

Também estou envolvida nas Fast Talks, é um projeto mais antigo, é muito anterior a mim. Têm ganho mais adesão por parte do publico, temos tido speakers internacionais de mais peso, mais chamativos.

Não pomos de fora a hipótese fazermos as Fast Talks só com portugueses. Temos pessoas super interessantes. Uma coisa não invalida a outra. A Lisa Lang veio ao Check Point na ultima edição e achamos que ela tem propriedade sobre as coisas que diz e achamos que é uma pessoas com massa critica para vir falar nas Fast Talks.

E é um bocadinho assim. São pessoas que nós vamos agregando de acordo com um tema, ou de acordo com o contributo delas. Nesta edição as Fast Talks têm três vistas, três visões sobre as ações possíveis. E estas visões não se vão sobrepor, em termos de mensagem daquilo que elas fazem.

A novidade para esta edição, nestas plataformas, mais ligadas ao conhecimento e à troca de ideias, é a Fashion Hackathon. Pode explicar-nos como vai acontecer?

Na sexta-feira (6 março) vamos abrir a Fashion Hackathon com uma introdução, em que a Fernanda Torre a facilitadora vai fazer uma apresentação sobre o futuro. A Fernanda vem de um contexto de gestão de inovação, especialmente ligada aos desafios à industria 4.0, e vai fazer a ponte daquilo que cada um dos dez participantes traz. Ou seja, temos pessoas de muitos quadrantes no grupo, e ela vai conduzir o processo em que todos vão falar dos seus focos.

Aquilo que é o foco, as preocupações ou as motivações de cada um. Vais ser um bocadinho por aí. Vai haver momentos de geração de ideias, puro e duro. Com desafios específicos que vocês próprios vão selecionar. E o objectivo é que sejam criadas algumas ideias. Que as equipas trabalhem na geração de uma ou de várias ideias para o futuro da moda em Portugal. O que é que o futuro pode reservar e que ideias é que nós podemos desenvolver juntos e inovar.

Na sexta-feira vão estar com o publico, no sábado de manhã vão estar sozinhos com ela. Sinto com isso, que é a ModaLisboa a abrir as portas a um grupo de pessoas que acha que pode ajudar-nos também a conduzir à mudança. E daí ser com pessoas que nós sabemos que também querem um futuro promissor para tudo isso.

Na última edição sentimos que estávamos a elevar a massa critica, com a parceria com a Catalyst e com o Jornal Eco. E percebemos que era importante também que o Check Point começasse a ser um sitio onde se incrementa no sentido de ação. Hoje em dia toda a gente organiza talks, mas quisemos fazer mais.

Acrescentar mais qualquer coisa. Decidimos que iriamos pôr as pessoas a colaborar. Sabemos que existem formatos de ideação, de brainstorming, de hackathon, e que se calhar seriam indicados para aqui. Nós até temos pessoas que costumam vir ao Check Point que gostávamos de chamar que trabalham em facilitação. Porque não fazer aqui?

No fundo isto é um piloto. As ideias podem não ser as “mais não sei quê”, porque estamos todos a experimentar. Fico muito grata com a disponibilidade das pessoas em vir. No domingo (8 março) são apresentados ao publico essas ideias.

Nesta edição o Wonder Room evoluiu e trás novidades.

Este ano o Wonder Room tem um conceito em termos de espaço, um bocadinho diferente, do costume. Larga o formato de mercado e abraça o formato mais de concept store. É uma espécie de modulo dipositivo único em que as marcas encaixam. E está muito bonito. Porque mercados há muito, há imensos. A ModaLisboa não quer esse ADN, por isso é mais nesta óptica, um sitio bonito com as peças expostas e as peças à venda.

Foi criado um novo espaço nas Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento do Exército. De que se trata?

É a ModaLisboa Verde, um lounge onde vão estar alguns projetos como a Planetiers, a WWF Portugal e os contentores têxteis (no pátio) da parceria da ModaLisboa e CML com o Terramotto e com a Humana Portugal.

A ideia é que seja possível veicular esta mensagem da sustentabilidade e da Lisboa Capital Verde, obviamente, para o grande público. Sejam as questões de consumo, sejam as questões energéticas, sejam os próprios eventos dedicados a este tema que vão existir na cidade. Importa-nos que o publico venha, visite e veja o que se pode fazer. Onde é que eles podem agir.

O nosso lounge tem essas valências e é uma maneira de também puxar o publico em geral para estas práticas. Envolver as pessoas a estas questões ligadas à vivencia de todos e que não são só ligadas à moda.

Moda: Conceito, Atitude e Ensino

Qual é o seu conceito de moda, como é que define moda?

Acho que tenho aquela dualidade que escrevi no meu blog. “So yes, maybe we can split fashion in two sides: the artistic side and the business side – maybe we should be exploring both – one focused on processes and products and bringing to life new shapes and proposals, and the other making them work and helping them finding their way to reach the audience – fashion is made to be worn after all and maybe it’s in the interconnection of these two mindsets that we can learn and evolve.”

Acho que o lado artístico, continua a ter que se celebrar. A ter e a precisar-se dele, como precisamos do ar para respirar. Continua a ter que existir um factor inspiracional, um produto de moda. Da maneira como se apresenta a moda. E por outro lado, moda também são os modos, também são as maneiras como é usada, como é consumida, como é vestida, – são os hábitos.

Moda é habito, para todos os efeitos. Para mim, não é só uma coisa, a Moda são várias coisas. Acho que de algum modo tem a ver com o viver, com as escolhas que fazemos. Por outro lado, trabalhando na ModaLisboa, e tu deves sentir o mesmo porque se calhar tens uma visão abrangente como a minha, nós realmente experimentamos o movimento da Moda.

Experimentamos a manifestação da Moda como arte, nestes momentos de desfile, nestes momentos de performance. Portanto existem dois lados aqui que eu acho que devem conviver, nesta definição.

Considera que a moda deve ter uma voz mais ativa e influente para as questões sócio-ambientais?

Sem duvida, que a moda deve ter. E tem vindo a ter. As questões sócio-ambientais têm sido muito focadas na industria de moda mesmo ao nível das semanas de moda. Como vimos ainda agora com o desfile da Balenciaga, por exemplo.

O meu medo é que a sustentabilidade, tal como o feminismo comecem a ser palavras gastas por uso impróprio. Ou seja, usadas como buzz-word pode ser muito perigoso. Porque eventualmente vai falar-se tanto que se vai perder o verdadeiro output de ação que é preciso. Não sei se chega fazer um mega show a falar de um tema ou se eu não preferia ver ações concretas. Há um lado disso que as vezes me preocupa.

Porque muitas vezes existem ações que são greenwashing ou são marketing de determinada missão e depois quando se vai procurar as ações concretas dizemos “they fall very short “ (elas caem por terra). E eu acho que essas coisas têm que ser debaixo para cima. E daí, isto colar também com a questão da educação.

Vai passar pela educação. Não há outra hipótese de não agir de um modo que seja correto com o planeta; com os seres humanos; com o desperdício que não se vai fazer ou, com a maneira como se vai tratar, etc. Ou então, vai-se continuar a agir como se agia antes, e a pintar de verde. Ou, a pintar de bege, ou seja, lá da que cor que se queira. Eu acho que as coisas têm que ser ao contrário.

Têm que ser mesmo do inicio da consideração. Nós na faculdade às vezes brincamos com isso. Dizemos, “não devíamos estar a ensinar uma disciplina de sustentabilidade. Nós devíamos ensinar todas as disciplinas sustentavelmente”. Com uma consideração que é abrangente, holística, a todo o currículo sobre o fazer as coisas da maneira correta. Porque neste momento trabalhar sustentavelmente é trabalhar corretamente.

Não existe outra maneira. Vamos respeitar os seres humanos que fazem as nossas peças de roupa. Vamos perceber o impacto dos processos que utilizamos e vamos dizer este, este e este processo para mim não serve. Porque eu não quero trabalhar assim. A questão é erradicar as práticas que são prejudiciais.

Como é que os alunos se têm debatido ou adaptado a estas questões da sustentabilidade?

Muito bem.

Eles sentem a necessidade de aderir a estas práticas?

Eles têm uma tendência mais ativista. Fazem mais perguntas. Estão mais despertos para o problema porque obviamente leêm a comunicação social. Também aprenderam na escola, até chegarem à faculdade, uma série de coisas. Para não falar dos movimentos do ativismo mais recentes com a greve climática e com a Greta Thundberg.

Eles também dizem que, “se ela faz eu também devia estar a fazer” Tenho alguns alunos que são efetivamente muito interessantes e muito ativistas. Ativistas no sentido que não vão só para a rua manifestar-se, eles fazem coisas de uma maneira diferente. Compram roupas, trocam, eles vão a tudo que é eventos, eles dão workshops de reciclagem/upcycling. Fizeram agora uma coisa no Lisbon Week. E falam muito disso, são críticos.

Portanto, são preocupados. Fazem as perguntas certas. A questão é que por exemplo, como um pequeno consumidor, que é o caso deles. Se eles têm que fazer um projeto, eles nem sempre têm muita noção da origem dos produtos que vão comprar, sei lá, à feira dos tecidos, por exemplo. E sinto que as vezes eles estão de mãos e pés atados em relação a algumas coisas.

Em muitos dos projetos, tenho tentado que usem por exemplo, pré-existências. Desmanchar objetos que já existem, seja fazer upcyling de coisas. Nem sempre é fácil, porque também não quero tolher a criatividade a ninguém. E quero que eles experimentem e que eles provem, tirem, errem, deitem fora e voltem outra vez a tentar. Ficam muito mais motivados, sem dúvida.

Acredita que estas preocupações afetem a criatividade. A aparência estética das suas propostas?

Acho que não, acho que vão sempre encontrar maneiras diferentes de fazer moda. São super criativos e não vejo projetos menos criativos por haver mais consciência ambiental, por exemplo. Até acho que é pelo contrário, acho que isso faz como se fosse um espicaçar de algum tipo.

Até aquelas competência de improvisação de aceitar quando corre menos bem e arranjar uma solução, problem solving. Há uma série de competências que são requisitadas nesta maneira de pensar. Que acabam por ser muito proveitosas. E acho que não vão ser menos criativos por terem mais consciência, acho que não.

Futuro da Moda: Sustentabilidade, Tecnologia e as Pessoas

O que significa, para si, sustentabilidade?

A definição que eu uso normalmente é aquela mais abrangente: responder às necessidades do presente sem comprometer a capacidade e os recursos para as necessidades das gerações futuras.

Acredita que a moda pode inverter o seu impacto negativo e contribuir para um futuro mais sustentável?

Tenho sempre que ir parar ao Papanek, para dizer que só se a Moda parasse de vez, é que se conseguiria repensar o ritmo a que estamos. Acho que não é possível parar. Acho que a Moda não o conseguirá na totalidade. Aos poucos, as práticas da Moda podem ir sendo repensadas e pode-se caminhar para uma mudança num sentido positivo

Num sentido em que cada vez mais pessoas o fazem até que um dia a norma seja essa. Eu não sei até que ponto, e nisto vou falar dos dois lados, é que à medida em que nós vamos avançando em termos de inovação, também não acontece descobrirmos outros prejuízos. A nível social, ambiental e tecnológico, por exemplo. Ou seja, tudo isto tem que ser ponderado porque muitas das vezes nós vamos utilizar determinadas inovações ou descobertas, ou que for.

E nem sempre vamos conseguir medir o seu impacto e às vezes já as estamos a utilizar, como é o caso das questões do 5G. Existem muitas respostas da tecnologia mas que nós ainda não sabemos o impactos delas. Portanto eu acho que o esforço tem que ser de uma constante reconsideração de práticas – estamos a fazer assim, vamos reavaliar.

Temos que ser autocríticos e estar sempre a estudar e a perceber para onde é que isto vai, e se está a ir bem. Acho que é por aí. Não acho que a Moda vá ser a cem por cento alguma vez mas acho que a Moda aos poucos, pode. E a prova disso é que percebemos que os grandes grupos, sejam eles mais Fast ou menos Fast, ou mais Luxury, já estão a fazer esforços neste sentido.

Isto também significa que eles não estão só a tentar fazer greenwashing mas também estão preocupados de alguma maneira que as marcas deles mais dia menos dia continuem a existir e a destruir recursos. No fundo vamos parar aí. Quando nós não tivermos mais sitio para fazer aterros se calhar já não dá para produzirmos mais.

Já não faz sentido haver Moda. O Papanek no ‘Design for the Real World’ diz uma coisa muito pertinente “in an environment that is screwd up visually, physically and chemically, the best and simple things that architects, industrial designeres, planners etc. Could do for humanity would be to stop working entirely. In all pollution designers are implicated at least partially.”

Na realidade o que ele diz é que nós devíamos parar. Porque tudo o que nós estamos a fazer, a dialética do consumismo e do capitalismo, é que está a fazer com que o planeta sofra. Mas será que devíamos parar? Eu podia passar os próximos anos sem comprar roupa nenhuma, mas lá está.

Existe uma industria que precisa disto e países que dependem disso, sobretudo o nosso. Eu não acho que nós vamos a tempo de alguma vez responder ao desafio. Acho que vamos caminhar, caminhando devagarinho para fazermos as coisas melhor e podermos ter sinais de mudança, sobretudo a nível da nossa produção.

A tecnologia vai ter um peso muito importante na mudança ou na transformação da moda nos próximos anos?

Ao nível de produção, desde a produção ao consumo, acho que a tecnologia vai ter um papel fundamental. Não só porque a comunicação nunca foi tão rápida, mas também porque em termos logísticos, em termos de criação, se vai poder muito facilmente através da possibilidade da tecnologia fazer um sourcing muito mais concertado, por exemplo, não produzir stock. Não produzir tanto stock porque há encomendas feitas ao minuto. Pode fazer-se imensa coisa, e a tecnologia está no ponto de viragem entre a necessidade e a entrega ao consumidor.

Na realidade o que ele diz é que nós devíamos parar. Porque tudo o que nós estamos a fazer, a dialética do consumismo e do capitalismo, é que está a fazer com que o planeta sofra. Mas será que devíamos parar? Na realidade, eu podia passar os próximos anos sem comprar roupa nenhuma, mas lá está. Existe uma industria que precisa disto e países que dependem disso, sobretudo o nosso. Eu não acho que nós vamos a tempo de alguma vez responder ao desafio. Acho que vamos caminhar, caminhando devagarinho para fazermos as coisas melhor e podermos ter sinais de mudança, sobretudo a nível da nossa produção.

Já não faz sentido haver Moda. O Papanek no ‘Design for the Real World’ diz uma coisa muito pertinente “in an environment that is screwd up visually, physically and chemically, the best and simple things that architects, industrial designeres, planners etc. Could do for humanity would be to stop working entirely. In all pollution designers are implicated at least partially.”

Mas isso não transfere a responsabilidade para os fabricantes que têm que ter stock para produzirem esses produtos, ao minuto?

Estou a falar especificamente de duas ou três inovações que conheço. O que a Lisa Lang está a fazer agora com as kniting machines, com a programação das máquinas de tricotar, no Porto, estou a falar do Post Couture Collective. É claro que são projetos muito cuting edge. De se fazer o download de um molde e depois faze-lo em casa.

Ou encomendo ao designer a malha que eu quero e ele mande. Mas acho que são diferentes abordagens. Acho que nós podemos de certeza poder mudar. Por exemplo o The Fabricant, com o digital fashion, é completamente virtual. Tive uma conversa com o Kerry Murphy (fundador do The Fabricant) em que lhe disse que a moda não vai ser só digital.

The Fabricant | ©The Fabricant

Que futuro é que vê na moda digital?

Esta moda digital da qual ele fala, que pode ser moda para o Sims mas também pode ser moda que eu, através de um interface dele, consiga encomendar exatamente o print que eu quero ou a camisa que eu quero, no tecido que eu quero àquela fábrica. Porque eu vi uma visualização.

Eu acho que a fábrica não vá precisar do stock porque entretanto se o processo for todo pensado para que por detrás disso eu também consiga, uma entrega direta dessa oferta de… eu já estou aqui a manobrar uma suply chain inteira, não é? (risos) Mas na realidade há várias possibilidades nesse sentido. E a tecnologia tem estado na ligação entre elas.

Em Portugal temos a start up Huub que tem imensas soluções. Uma vez mais eles têm ajudado a manobrar a cadeia de produção de moda, desde a fábrica até ao consumidor final. Eles são um parceiro de logística com interfaces tecnológicas. Que gerem todo a cadeia de valor. E isso pode cortar imenso, por exemplo, em emissões (de gases nefastos).

Quais são para si as maiores mudanças ou transformações na moda das últimas décadas?

A tecnologia e tudo que é a ligação web, sem dúvida que é isso.

E a democratização da Moda, também?

Eu sou a pessoa que não consegue demonizar tanto assim a Fast Fashion por causa disso. Porque eu acho que a democratização teve um papel quase político, no acesso, por um lado. E depois de alguma maneira, por outro lado, a politização também tem estas questões do ativismo que são uma mudança radical nos últimos tempos.

Porque fazem com que sejam os consumidores que se transformaram em pessoas que são criticas sobre as industrias todas. Seja alimentar, seja a industria do vestuário, seja a industria automóvel. Tudo aquilo que de facto, neste mundo, acho uma das grandes considerações, talvez da última década, que é o facto de que o publico tem mais voz.

O consumidor tem mais informação, tem para o bem e tem para o mal. E pode passar a prosumers, não é? Mas às vezes também têm para o mal, porque não são suficientemente informados e desatam a destruir uma marca, na internet, acontece. Também acho que temos mais poder.

Qualquer pessoa tem mais poder hoje em dia. E isso, é uma coisa muito bonita, para quem nasceu como eu, filha de pessoas que viveram o pré e pós Estado Novo. Ter contacto direto com quem faz as nossas coisas. Com quem faz as nossas propostas e poderemos ter um dizer (say).

Qual é o seu motto para uma moda mais sustentavel?

Pensar bem para agir melhor.

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