H&M e o Círculo da Moda

Por admin

Nuria Ramirez responde pela Península Ibérica como Sustainability Manager da gigante H&M. Com ela, tivemos uma conversa esclarecedora sobre o futuro da moda onde não faltaram os conceitos fast fashion, economia circular e a novíssima coleção Conscious Exclusive para esta primavera.

Está na H&M há dezanove anos (desde da entrada da H&M no mercado Espanhol), como é que vê a evolução da marca?

Sobre a perspetiva da sustentabilidade, a H&M tem vindo a confrontar os desafios enquanto a indústria da moda se vai transformando. Liderando esta mudança em direção a um futuro mais sustentável na moda.

Naturalmente, o seu percurso profissional dentro do Grupo foi evoluindo. Acredita que a sua formação e experiência profissional anterior, em economia, foi determinante para essa evolução?

Bem, o grupo H&M é uma das maiores empresas de moda e de design do mundo, portanto, quando iniciei a minha carreira aqui, não havia limites para onde poderia chegar. A empresa desafia-nos com grandes responsabilidades desde o começo e se houver da nossa parte paixão em explorar estas oportunidades as possibilidades na carreira são intermináveis.

Nuria Ramirez

Fala-se cada vez mais em economia circular, nomeadamente na moda. Porquê que a economia circular no sector têxtil é tão importante?

Para ir ao encontro das necessidades de que haverá cerca de 10 mil milhões de pessoas, em todo o mundo, em 2050. Temos que continuar a crescer também no futuro mas esse crescimento terá que ser feito dentro das limitações planetárias. A solução está em separar o crescimento económico do uso dos recursos naturais. Para que a economia e o desenvolvimento social possam acontecer num cenário possível para o planeta. Para o grupo H&M, tornarmo-nos cem por cento circular e reutilizarmos significa optar por uma abordagem circular sobre a forma como a moda é produzida e usada. Incluindo o nosso objectivo de usar apenas materiais reciclados ou de fontes sustentáveis em 2030 e assim alcançar um clima de corrente positiva.

Quando é que surgiu o departamento de sustentabilidade na H&M e qual o seu peso dentro do grupo?

O grupo tem um longo historial no que se refere à sustentabilidade e para nós sempre foi importante agir num sentido que torne isso possível. Não só no presente mas também para que no futuro as próximas gerações apreciem moda. Através da nossa dimensão e escala agimos como catalisador destas mudanças sistémicas por todas as nossas operações e na indústria em geral para garantirmos que podemos continuar a fazer boa moda e design, de uma forma sustentável para as futuras gerações.

Quais são as prioridades de sustentabilidade para a H&M?

A nossa visão é de liderar a mudança em direção a uma moda circular e reutilizável, e ao mesmo tempo tornarmo-nos uma empresa cada vez mais justa e equitativa. Toda a nossa estratégia é construída com base nestes três pontos-chave, que tanto ambicionamos.

O grupo sente a pressão por parte dos clientes para se tornar cem por cento sustentável?

Na H&M adoramos moda e design. Somos movidos pelo desejo de criar sempre a melhor oferta para os nossos clientes – e fazer isso de uma forma inclusiva e sustentável. Os nossos objectivos excedem as expectativas dos clientes.

O grupo H&M é recentemente signatário do acordo New Plastics Economy, uma iniciativa da Fundação Ellen MacArthur. O que é que isto representa para o grupo e quais são os compromissos assumidos?

Passamos a ser um dos signatários desse acordo que reúne empresas e Governos para que juntos possamos dar um passo em frente como líderes globais. Trabalhando em soluções para a base da poluição e do desperdício do plástico. Os desperdícios do plástico são um problema que desafia todas as marcas a encontrar uma solução em direção a uma economia circular para os plásticos. Com a qual o plástico deixará de ser um desperdício. Ao tornarmo-nos signatários do New Plastics Economy Global Commitment, o grupo H&M não só demonstra o seu compromisso perante uma economia circular para os plásticos como também enfatiza a transparência neste processo. Comprometemo-nos até 2025 em:
1)Tomar medidas para eliminar os plásticos desnecessários e problemáticos das embalagens através da inovação, do redesign e da sua redução. 2)Agir para substituir os plásticos single-use por modelos reutilizáveis. 3)Que cem por cento das embalagens de plástico se possam reutilizar, reciclar ou compostar. 4)Estabelecemos para 2025 um ambicioso objectivo de reciclagem em todas embalagens de plástico usadas. 5)Colaborar para o aumento dos números do plástico reutilizável/reciclado/compostável.

No ano passado lançaram pela primeira vez duas coleções Conscious Exclusive, uma em abril (primavera) e outra em setembro (outono/inverno). A caxemira reciclada foi um dos principais materiais da coleção de outono/inverno, porquê que  é tão importante um material natural como a caxemira ser reciclado?

Esta foi a nossa primeira coleção Conscious Exclusive de outono/inverno e isso permitiu-nos aumentar as possibilidades em relação à sustentabilidade através da inovação e do desenvolvimento dos materiais. Ficámos muito felizes com esta coleção porque conseguimos introduzir novos materiais sustentáveis que a nossa equipa de designers transformou em moda de excelente qualidade. Na H&M estamos constantemente à procura de materiais inovadores e de processos que tornem os nossos produtos mais sustentáveis. A caxemira reciclada e o veludo feito com polyester reciclado foram os principais materiais dessa coleção. A caxemira usada teve origem no desperdício do consumidor e nas aparas (desperdício) de produção. Ao reciclarmos a caxemira, estamos a salvaguardar as matérias primas. Usamos menos químicos, menos água e menos terreno. Ao mesmo tempo reduzimos o desperdício que acabaria nos aterros.

Conscious Exclusive 2019

Dia 11 de abril lançaram a nova coleção Conscious Exclusive P/V19. Qual é a sua inspiração e inovação?

A coleção Conscious Exclusive de 2019 é inspirada na beleza natural que nos rodeia e na importância da natureza para o nosso bem-estar. Minerais, árvores e plantas foram traduzidos pela equipa de design em lindos padrões e numa paleta de cor condizente. Com esta coleção a H&M caminha para um futuro da moda mais sustentável através do desenvolvimento e inovação da moda e da sustentabilidade. Feita a partir de materiais sustentáveis, a equipa de design proporciona-nos assim a oportunidade de experimentar novos e interessantes materiais. Nesta estação os novos materiais são a Orange fiber, feita a partir do subproduto (casca da fruta) da produção de sumos cítricos, cuja celulose dá origem a tecidos com texturas semelhantes às da seda. A Piñatex que é uma pele vegetal e alternativa obtida através das fibras da celulose das folhas dos ananases e dos desperdícios deste fruto. Espuma Bloom de origem vegetal. Esta espuma flexível é feita a partir de algas que são recolhidas das águas ajudando a manter o equilíbrio do seu crescimento e seu habitat natural. Assim como o polyester reciclado, o tencel, o algodão e o linho biológicos. Acreditamos que as escolhas conscientes de moda devem ser acessíveis e disponíveis para todos – sem que isso comprometa o estilo.

A sustentabilidade e o comércio justo são bons para o negócio?

Vemos no investimento da sustentabilidade uma boa oportunidade de negócio. Os investimentos na sustentabilidade permitem-nos a longo prazo oportunidades que irão manter o grupo H&M relevante e bem sucedido na rápida mudança do panorama mundial.

Conscious Exclusive 2019

A H&M ambiciona para 2030 usar apenas materiais reciclados ou de fontes sustentáveis nas suas coleções. Como é que esse objectivo está a ser conseguido?

Esse é o nosso objectivo. Em 2017 conseguimos usar 57% de materiais reciclados e de fontes sustentáveis. O algodão é o material que mais usamos e a nossa meta para 2020 é que todo o algodão tenha origem de fontes sustentáveis. Em 2018, 95% do nosso algodão era orgânico, reciclado ou algodão proveniente do Better Cotton Initiative. O grupo é um dos maiores compradores a nível mundial de algodão (orgânico, reciclado e BCI), de tencel, de lyocell e de polyester reciclado, segundo o último relatório do Textile Exchange. Usamos o equivalente a mais de 325 milhões de garrafas de plástico PET no nosso polyester reciclado.

A H&M ao longo destes últimos nove anos tem ganho diversos prémios e distinções na área da sustentabilidade. Qual foi, para si, o mais importante?

Para mim, um dos mais importantes foi em Julho do ano passado, quando a Greenpeace reconheceu a liderança o grupo H&M em relação ao uso responsável da água e a boa gestão de químicos utilizados. A água é o recurso natural mais importante para todas as formas de vida, na minha opinião, devia ser a prioridade para todos nós.

Mas os objectivos sustentáveis só serão possíveis se também houver um empenho individual e colectivo por parte dos consumidores…

Estamos empenhados em tornar da indústria da moda mais transparente. E isso dá aos consumidores maior poder de decisão no momento da compra. Para nós, a transparência é saber como e onde os nossos produtos são feitos e tornar essa informação publica. Isso oferece ao consumidor a confiança de que tudo o que compram na H&M é pensado (design), produzido e tratado com responsabilidade perante as pessoas e o ambiente.

Conscious Exclusive 2019

Na primavera passada lançaram o projecto piloto TAKE CARE em Hamburgo, Alemanha. Pode explicar-nos o conceito e como funciona?

Gostamos muito de moda e os nossos clientes também. Lançamos o H&M Take Care como um complemento das nossas coleções de roupa. Com o qual encorajamos e inspiramos os nossos clientes a cuidar e a prolongar o tempo de vida das suas peças de moda favoritas. É uma combinação de produtos, de orientações e de serviços que vão de encontro com as necessidades dos clientes. Para renovar, reparar e refazer de forma a aumentar a durabilidade das peças. Oferecemos indicações através de um núcleo de informação e de inspiração de como se consegue cuidar melhor das roupas, sapatos e acessórios. Este projeto tem produtos de lavagem, tira nódoas, remendos, kits de reparação de emergência, toalhetes para ténis, etc , tudo o que é preciso para cuidar (take care) das peças favoritas de cada um. Vamos introduzir também serviços de parceria com alfaiates e costureiras locais para reforçar este apoio, para que os clientes cuidem bem das suas peças de moda.

Existem outros espaços Take Care em outras cidades?

O projeto piloto foi introduzido na nossa loja em Hamburgo em abril do ano passado e em junho implementámos na nova loja La Fayette em França. Temos grandes planos para este conceito.

O grupo H&M em dezembro de 2018, durante a Conferencia das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas em Katowice, Polónia (COP24) integrou o Estatuto da Indústria da Moda para as Ações Climáticas (Fashion Industry Charter for Climate Action). É um dos maiores compradores de viscose e de algodão de fontes sustentáveis. O grupo tem ganho diversas distinções a nível de transparência e ambiciona a alcançar a moda circular. Resumindo, a H&M está bastante empenhada em tornar-se uma marca sustentável e contribuir para uma mudança positiva ambiental. Como é que uma marca com este enquadramento continua a ser considerada fast fashion, se fast fashion é conotada com um impacto negativo sobre o planeta Terra?

Para nós a moda é algo precioso. Não nos consideramos uma empresa de fast fashion e nem encorajamos a atitude do descarte dos artigos. Em contrapartida, queremos criar peças atrativas que sejam duradouras. Assim, como consideramos importante que os consumidores estimem e cuidem bem das roupas que compram. E que as empresas sejam responsabilizadas pelos produtos que oferecem – não só na produção e nas vendas, mas também na fase em que o consumidor deixa de usar os artigos. É por isso, que temos nas nossas lojas colectores de roupa e de sapatos que possibilitam aos consumidores deixar lá esses artigos em desuso. Que serão reutilizados ou reciclados. Na H&M queremos oferecer moda sustentável para todas as pessoas a preços acessíveis. Vendemos, sobretudo à classe média que continua a crescer e que se prevê que terá mais três mil milhões de pessoas em 2050. Todas essas pessoas irão precisar de roupa. Por isso, a moda continuará a ser necessária, sem dúvida. Contudo, a H&M acredita que uma abordagem circular, na forma como a moda é feita e apreciada, é a solução para evitar o impacto negativo do consumo de moda. A moda sustentável não deve ser para um nicho de pessoas mas sim para todas.

Qual é a maior ambição do Grupo?

Ambicionamos fechar o círculo da moda. Onde todos artigos podem ser usados, reciclados e convertidos novamente em moda. Passar da economia linear para a economia circular. Queremos fazer do desperdício uma fonte de materiais e dar-lhe um novo valor. A longo prazo, queremos encontrar a solução para reciclar todas as roupas que já não são usadas por ninguém. Ao criarmos a busca por soluções e trabalhar ativamente com a inovação e cientistas, estamos positivamente a promover os desafios para se fechar o círculo da moda. Estamos envolvidos em diversas iniciativas e projetos prometedores.

Qual é o seu motto para a sustentabilidade?

Respeitar e cuidar de todas as formas de vida.

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