O Poema Sou Eu

Por admin

Sónia Balacó é um ser múltiplo que resulta da interseção de várias coisas. E que não consegue separar a arte da vida. Sónia fala-nos de moda, de poesia, do seu alter-ego Queen of Gaya,  e da sustentabilidade do planeta. No final, concluímos que também podemos dizer, o poema somos nós.

No ano passado completou 20 anos de carreira como modelo. Lembra-se como era o panorama da Moda na altura?

Lembro-me perfeitamente e com muito carinho desses tempos e de como éramos uma família.

Tinha noção da dimensão da indústria da moda?

Acho que não tinha, até porque antes de começar a trabalhar, a moda era um universo completamente estranho e distante.

Quando é que percebeu que a moda fazia parte de um dos maiores motores da economia mundial?

Não tenho a certeza, talvez quando aos 15 anos fotografei com o Mário Testino para a L’Uomo Vogue. Nunca tinha visto uma equipa tão grande num set.

Com quinze anos estreou-se na representação, na série televisiva ‘Jornalistas’. Foi uma oportunidade imperdível ou uma curiosidade?

Definitivamente uma oportunidade imperdível. Ser atriz era o meu sonho. Na altura a foto que fiz com o Testino foi capa da L’Uomo Vogue e tive de escolher entre ir para Milão trabalhar como modelo ou fazer a série, o que foi uma decisão fácil para mim.

Vestido H&M Conscious Exclusive O/I 18’19.
Vestido de econyl, H&M Conscious Exclusive O/I 18’19

Mas a carreira de modelo foi apenas um começo, estudou Artes do Espetáculo na Faculdade de Letras de Lisboa e mudou-se para Londres para aprofundar os seus estudos como atriz. É poeta, ativista ambiental e agora canta. Como é que estas facetas foram surgindo?

No fundo eu acho que sempre existiram, ainda que umas tenham sido mais públicas do que outras. Sinto-me um ser múltiplo e agora, finalmente, estou em paz com essa multiplicidade de interesses que durante muito tempo me pareciam inconciliáveis. Escrever poesia é a expressão artística que faço há mais tempo, desde a infância, e a minha preocupação com o ambiente também vem dessa altura. Escrever canções é uma consequência da escrita de poesia, algo que fazia parte do meu processo criativo mas que nunca pensei fazer publicamente. Só em 2015, quando me começaram a chegar canções que claramente não eram em meu nome e se começou a desenhar o projecto Queen of Gaya, percebi que tinha em mãos algo a que tinha de dar à luz.

Publicou em 2015 um livro de poemas ‘CONSTELAÇÃO’ e escreveu “um poeta que não quer mudar o mundo não é um poeta” O que gostaria de mudar no mundo?

Gostaria que humanidade se reconciliasse com a natureza, percebendo que é parte dela, e salvando-se o futuro da espécie pelo caminho, que percebêssemos todos que o que nos une é tão maior do que os detalhes que nos distinguem e gostaria também que todos os humanos fossem livres de desfrutar do planeta Terra, sem limitações de nacionalidade e fronteiras.

Vestido de seda, H&M Conscious Exclusive O/I 18’19

No inicio de 2017, a revista Visão publicou um texto seu ‘Do Futuro da Espécie’ sobre a falência do planeta Terra e da colonização de Marte como plano B. Mas ainda vamos a tempo de travar a destruição dos recursos naturais e evitar essa hipótese, não concorda?

Sim, creio que ainda vamos a tempo de mudar o destino catastrófico que nos é apontado, mas temos de ser rápidos e eficientes. É urgente percebermos que se não mudamos o nosso comportamento vamos assistir no nosso tempo de vida às consequências drásticas das alterações climáticas. Está nas nossas mãos. E o que decidirmos, ou não, fazer agora será definidor do nosso futuro.

Contudo, a sua visão para o futuro não é totalmente pessimista. Num outro texto sobre como seria Portugal em 2036, o desfecho é positivo. É uma romântica?

Sou acima de tudo uma sonhadora e uma optimista. Sonho com o futuro que descrevi mais acima quando me perguntou sobre o que gostaria de mudar no mundo, e acredito nele com toda a força, também porque acredito estar a fazer a minha parte para o ver concretizar-se.

O que a inspira?

O belo e a verdade.

No verão passado participou no festival de música e arte urbana, o Iminente com curadoria de Vhils. Foi o rosto da campanha da Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal – AORP. Como é para si participar na cultura nacional em campos tão opostos como a arte urbana e a tradição da joalharia portuguesa?

Não os sinto como acontecimentos opostos – até porque estou muito bem resolvida em relação ao facto de eu ser a intersecção de várias coisas – são como facetas diferentes da minha vida profissional: no Iminente estive como artista, a fazer uma performance minha, e na AORP dei a cara pela campanha.

Camisola de caxemira reciclada, H&M Conscious Exclusive O/I 18’19

É possível dissociar o trabalho da vida pessoal?

Sim, e não. Separo muito bem a vida pessoal da vida pública, que é consequência da minha vida profissional, mas não sei separar a arte da vida. Para mim são a mesma coisa e a verdadeira obra de arte é como estou na vida, como a cruzo, como trato os outros, como contribuo para o todo. O poema sou eu.

Quando realizamos esta sessão fotográfica, terminou o dia a cantar. É uma forma de descomprimir?

Adoro cantar, é só mais uma forma de deixar o coração falar.

Esse dia passado no rio Tejo ajudou o coração a falar mais alto e a dar voz a Queen of Gaya?

Quando fotografamos (em setembro), Queen of Gaya já vinha a caminho. Já estávamos na fase de mixing do primeiro single, ‘I Will Bring The Water’, que compus a meias com o Luís Montenegro, dos Salto.

Fale-nos um pouco desta sua nova faceta.

Queen of Gaya não sou eu, é um alter-ego. Um ser que não é do planeta Terra e que vem cá com uma missão: contribuir para a construção de um reino de amor no planeta através da sua música. No fundo, também é arte com vontade de mudar o mundo.

Queen of Gaya também lhe fez revelar outro talento, o de realizadora… Como foi a experiência de estar nos dois lados da câmara?

Foi uma experiência muito positiva. Sempre tive vontade de realizar e fiquei muito feliz por poder fazê-lo e por conseguir contar a história que queria e como queria. Muito grata por toda a ajuda de todas as pessoas envolvidas e da FIM, a produtora.

No fundo, também é arte com vontade de mudar o mundo.

Top de veludo de polyester reciclado, H&M Conscious Exclusive O/I 18’19

A roupa que tem vestida no vídeo é claramente intemporal e inócua, essa decisão deveu-se a quê?

Essa decisão foi tomada a meias com a Matilde Travassos, que fez a direção de arte do vídeo. Achámos por bem afastarmo-nos de algo que fosse muito moda para que a imagem de Queen of Gaya fosse claramente diferente da minha, que tenho uma relação tão próxima com a moda.

Como acha que vai ser a moda daqui a 20 anos?

Acho que é inevitável que se torne cada vez mais sustentável. Estamos todos cada vez mais conscientes sobre as questões ambientais e acho que a transição está a acontecer. Ainda existe muito consumismo de fast fashion, mas também vejo cada vez mais pessoas que adoptam outros estilos de vida como o minimalismo, por exemplo.

Qual é o seu motto para uma moda mais sustentável?

Eu não sou nada consumista e acho que é sempre melhor ter uma peça boa do que vinte de baixa qualidade que daqui a seis meses não vamos querer usar.

FOTOGRAFIA: CARLOS TEIXEIRA
MAQUILHAGEM: INÊS AGUIAR
REALIZAÇÃO: SANDRA DIAS
AGRADECIMENTOS: RIO-A-DENTRO
Lenço e vestido de seda, H&M Conscious Exclusive O/I 18’19
NOTA: Este editorial foi fotografado em setembro de 2018.

Artigos Relacionados