Upcycling ou downcycling?

Por Sandra Dias

O colectivo MSCHF juntou a Birkin da Hermès às Birkenstock. O resultado são as Birkinstock, uma provocação artística que desafia o conceito de upcycling.

A economia circular desafia-nos a pensar como prolongar o ciclo de vida dos nossos produtos. Em moda uma das opções recorrentes tem sido o upcycling. Que é nada mais do que a utilização de produtos, componentes ou materiais secundários que resultam em maior valor económico daquele material.

No entanto, também há quem transforme, modifique ou adapte algo pré-existente, dando-lhe uma nova vida. As peças podem ficar sofisticadas ou mais simplórias, conforme a intervenção e a capacidade de quem o faz. Se a peça perde valor qualitativo, será que continua a ser upcycling ou torna-se downcycling?

No início de fevereiro a MSCHF(1), uma start-up e colectivo de Brooklyn, vendeu uma edição limitada de sandálias intituladas Birkinstock e desafiou estes dois conceitos. Ao apresentar uma fusão entre a carteira Birkin da Hermès e as sandálias Arizona da Birkenstock. Juntando assim, o luxo com a moda de rua.

A tradicional carteira Birkin, criada em 1984 pela Hermès, é um dos objetos de moda mais cobiçados e com uma enorme lista de espera. Produzida manualmente, obedece a um elevado critério de qualidade de construção e de seleção de materiais, o que torna a sua disponibilidade ainda mais limitada. Mais do que um objeto de desejo, a Birkin é também um investimento garantido. Segundo a Baghunter a sua valorização anual no mercado é superior à do ouro.

Do outro lado do espectro, temos um dos acessórios que mais esperou para se tornar moda, as Birkenstock. Criadas em 1774, na Alemanha, somente nos últimos anos conseguiram alcançar um estatuto no universo da moda, com as colaborações exclusivas com Valentino, Rick Owens e Proenza Schouler. Os seus preços rondam os 90 euros e os materiais são a cortiça, a borracha, a pele e o poliuretano. Hoje em dia, são consideradas o calçado mais cool e popular da moda.

Sandálias Birkinstock, MSCHF
Sandálias Birkinstock, MSCHF

Artistas e Artesãos. Tecnologia e Savoir-faire. Razão ou Emoção?

Sátira ou não, a MSCHF roubou como um artista o melhor destes dois extremos do mundo da moda. Ao desmanchar, desmembrar e cortar as Birkin originais para as transformar em replicas da Arizona. Dando-lhes uma nova forma e vida no momento em que se juntaram à cortiça e à borracha, típicas das icónicas sandálias da Birkenstock.

As suas fivelas são de ouro vermeil com Birkinstock gravado. E cada par é entregue numa caixa cor de laranja com uma fita castanha, à la Hermès. Já os preços, estão ao nível das carteiras Hermès frequentemente leiloadas pela Sotheby’s. Oscilando entre os 28.000 e os 63.000 euros. Quem as quiser comprar tem de submeter o seu interesse por email à MSCHF.

O colectivo de Brooklyn provou que é possível subverter conceitos através da sua fórmula. Lançar novas criações online e através da sua aplicação, de duas em duas semanas, em edições limitadas envoltas num absoluto secretismo. Upcycling, downcycling ou arte? Neste caso, é apenas uma questão de interpretação pessoal.

Em 2019 os seus Jesus Shoes e os 88 Holes, em 2020, esgotaram num ápice. Os Jesus Shoes surgiram de uns ténis Nike Air Max 97 aos quais juntaram água benta do rio Jordão nas solas e um crucifixo nos atacadores. Foram vendidos por 1.200 euros, o par. Já os 88 Holes é o resultado da venda dos círculos coloridos de um quadro de Damien Hirst. Vendidos individualmente por cerca de 400 euros. Depois disso, o quadro esburacado somente com a assinatura do artista foi vendido por 214.000 euros, oito vezes e meia mais que o seu valor original.

Esta atitude disruptiva rompe com a forma de como encaramos as mudanças. E obriga-nos a deixar a zona de conforto. O upcycling não tem que ser visto como um remendo ou uma transformação simplória feita em casa, de fazer de umas calças um saco de praia. Não tenho nada contra o DYI, porém, quando falamos de moda também falamos de design. Em que se deve avaliar todos os recursos e saber integrar os desperdícios, quer seja ao nível do corte ou de peças com defeito, em novos produtos. Onde o design de moda é dignificado e valorizado.

O exemplo das Birkinstock leva-nos a refletir sobre o que acontece às peças que não passam pelo crivo da qualidade quando ainda estão na fase de produção nas oficinas ou nas fábricas. O que fazem as diferentes casas de moda com as suas coleções de acessórios ou de roupa quando isso acontece?

Carteira Monsier B, Petit h, Hermès
Carteira Monsier B, Petit h, Hermès

A resposta foi dada há onze anos pela Hermès. Quando Pascale Mussard, tetraneta do fundador da marca, idealizou e colocou em prática o petit h. Uma oficina alternativa, um laboratório de pesquisa aplicada, no fundo, um atelier que une objetos soltos tornando-os peças únicas. Com a principal preocupação centrada na disponibilidade futura dos materiais preferidos da marca. E que reflete aquilo que a define, o gosto de conservar para transformar.

Neste atelier tudo é possível, lenços de seda inutilizados são transformados em papel de seda. Um relógio de cuco suíço nasce a partir de uma carteira Kelly. Fivelas e botões surgem de pedaços de marmorite milenar que anteriormente pavimentou igrejas e palácios em Veneza. Petit h tem morada permanente na loja Hermès na Rue de Sèvre, em Paris, mas percorre diferentes locais(2) no mundo em eventos itinerantes e efémeros.

Em 2018 passou por Lisboa e o primeiro andar da loja foi transformado num cenário desenhado pela artista, arquiteta e designer portuguesa, Joana Astolfi. Aqui os clientes puderam ver de perto como os artesãos do atelier e artistas ligados à marca devolvem valor aos seus materiais. Transformando desperdícios em peças únicas com a mestria do savoir-faire e adicionando-lhes valor emocional.

Isso leva-nos de volta às definições de Upcycling e Downcycling, que apenas contabilizam a valorização ou desvalorização económica dos materiais. Mas não devíamos contar também com os valores emocional e qualitativo? Afinal a moda é uma combinação dessas dimensões.

A moda representa um sector económico, depende da qualidade dos materiais, materializa uma estética mas também comunica emoções, ideais e individualidade. Upcycling, downcycling ou arte? Nestes casos, é apenas uma questão de perspectiva. Que depende da avaliação e interpretação pessoal, e do quanto cada um está disposto a pagar por cada peça reinventada.


1. MSCHF – contração da palavra mischief que pode significar malandrice, partida, brincadeira ou divertimento irrequieto.

2. Este ano o petit h pode ser visitado na loja Hermès na Faubourg Saint-Honoré, até Agosto.

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